EPILEPSIA ou CONVULSÕES EM CÃES

EPILEPSIA ou CONVULSÕES EM CÃES

Definição

Denomina-se epilepsia um quadro clínico caracterizado pela repetição frequente de episódios convulsivos.

Uma convulsão define-se como um distúrbio da função cerebral, abrupto, que termina espontaneamente e tem tendência para suceder novamente. Talvez por ser mais fácil de identificar, o tipo de convulsão mais comum nos nossos animais é a convulsão generalizada. Neste tipo de convulsão, o animal cai para o lado, debate-se violentamente no chão movimentando as patas como se estivesse a pedalar e saliva profusamente. Pode urinar ou defecar durante o ataque e não reconhecer o dono, tornando-se mesmo violento. Após a convulsão generalizada segue-se um estado (post-ictus) com duração de aproximadamente 48 horas. Durante este período, o animal apresenta-se desorientado, ansioso, temporariamente cego, deprimido, com perda de equilíbrio, descoordenado e mais apetite.

Existem, no entanto, convulsões mais leves. Neste tipo de convulsão o animal parece “perder a concentração”, está mais triste e menos activo. Também podem ocorrer aparentes desmaios, descoordenação motora, tremores, alterações de comportamento, alucinações repetidas (caçar moscas, lamber o chão, correr atrás do rabo, etc.).

Causas

Doenças hepáticas ou renais, doenças virais (esgana, raiva), bacterianas ou protozoárias (toxoplasmose), anomalias cerebrais (congénitas, tumorais) problemas glandulares (hipotiroidismo, hipoparatiroidismo) traumatismos cranianos, doenças metabólicas como diabetes, hipoglicémia (acuçar baixo no sangue) ou hipocalcémia (pouco cálcio sanguíneo), entre outras, podem ser responsáveis por episódios convulsivos. Se a causa evidente da convulsão é desconhecida, esta é denominada de idiopática.

Diagnóstico

Na abordagem do doente epiléptico é muito importante que o proprietário dê o máximo de informação possível ao Médico Veterinário. Para além de uma boa descrição do ataque convulsivo, o proprietário deve informar sobre possíveis traumas cranianos há poucas horas ou meses atrás, presença de substâncias tóxicas nos locais habitualmente frequentados pelo animal, uso de insecticidas, idade do animal na ocasião da primeira convulsão, frequência das convulsões e presença de convulsões em outros elementos da família do animal. Após esta primeira abordagem é necessário realizar alguns exames clínicos, tais como análises sanguíneas, raio-x, T.A.C. e/ou mesmo ressonância magnética, de modo a descartar as causas atrás referidas. Se a causa continuar desconhecida admite-se que se trata de um caso de epilepsia idiopática.

Epilepsia Idiopática

A epilepsia idiopática é de carácter genético e é a forma mais conhecida e comum de epilepsia. Estima-se que afecte cerca de 1.78% dos nossos cães. Um episódio convulsivo esporádico na vida do animal não significa que tenha este tipo de epilepsia. Este tipo de epilepsia surge entre os 6 meses e 3 anos de idade do animal e caracteriza-se pela predominância de ataques convulsivos generalizados de forma repetida. O cão é estatisticamente mais afectado por este problema que o gato.

Sendo de carácter genético existem certas raças de cães com maior risco de vir a sofrer deste problema, entre outras:

– Beagle

– Teckel

– Pastor belga

– Husky siberiano

– Malamute do alaska

– Golden retriveir

– Retriveir labrador

– Boxer

– Caniche

– Cocker spaniel

– Fox terrier

– Setter irlandês

– Setter gorden

Quando é que um ataque epiléptico pode ameaçar a vida do animal?

A vida do animal pode estar em risco quando um ataque dura mais de 20 minutos, ou se o animal tem vários ataques sucessivos num curto espaço de tempo. Nestas ocasiões o suprimento sanguíneo ao cérebro pode ficar comprometido e outras funções orgânicas interrompidas. Por este motivo, o proprietário deve contactar imediatamente o médico veterinário.

Tratamento

Quando não se encontra causa específica para os episódios convulsivos, conclui-se que o animal tem epilepsia idiopática genética. Neste caso, espera-se a repetição dos ataques no futuro.

O tratamento com anti-convulsivos só é indicado para animais com convulsões frequentes (pelo menos uma por mês). Isto acontece porque este tipo de medicamentos é metabolizado, em grande parte, pelo fígado. Por esse motivo, a sua administração regular danifica as células hepáticas, podendo causar a longo prazo lesões hepáticas graves.

O tratamento exige uma grande dedicação e paciência por parte do proprietário, já que a medicação precisa de ser administrada diariamente e sem interrupção.  O sucesso baseia-se na redução da frequência, gravidade e duração das convulsões já que é raro serem completamente abolidas.

Cada animal reage individualmente à medicação anti-convulsiva. Por isso, é necessário um período de experiência até que o veterinário chegue à dosagem de manutenção mínima para cada paciente. Durante este período podem suceder episódios de excitação/prostração que necessitam ser vigiados.

É natural que os animais que tomam este tipo de medicação tenham mais apetite e mais sede e que numa fase inicial se encontrem mais sonolentos.

A dose de manutenção deve ser a mínima capaz de evitar ataques, já que a longo prazo podem-se esperar problemas hepáticos graves (cirrose). No entanto um cão com epilepsia idiopática pode durar anos com uma boa qualidade de vida.

Como manter uma baixa frequência de episódios convulsivos

Se o seu cão tem epilepsia idiopática, não desespere: evite situações de stress, mantenha a medicação estipulada pelo médico veterinário e faça análises bioquímicas regulares (de 6 em 6 meses) a fim de controlar as lesões hepáticas secundárias. Deve submeter-se o paciente a muito exercício e regular a quantidade de comida ingerida diariamente para não engordar, devido ao aumento do apetite provocado pelos medicamentos anti-convulsivos.

Devido ao seu carácter genético, devemos evitar o cruzamento de animais com epilepsia para evitar a propagação desta doença. É extremamente indicado a castração dos animais epilépticos idiopáticos, especialmente as fêmeas que, na época de cio, devido às alterações hormonais apresentam maiores probabilidades de ter convulsões.

O que fazer durante uma convulsão generalizada?

  • O proprietário deve tentar proteger o cão para que este não se magoe, batendo em objectos ou caindo de locais altos, como escadas, etc.
  • Deve acomodá-lo tão confortável quanto possível, deixando o ambiente tranquilo e com pouca luz.
  • Certificar-se que a língua não está a obstruir a passagem do ar mas sempre com cuidado para que não o morda por acidente É preciso lembrar que muitas vezes durante o ataque o animal perde temporariamente a consciência o que o leva a não reconhecer o dono e pessoas familiares.
  • Quando o animal estiver a voltar ao seu estado normal recomenda-se que o dono o acaricie e fale com ele para que o cão, ao reconhece-lo, se tranquilize mais rapidamente.
  • Ter sempre por perto a medicação intra-rectal de urgência, recomendada pelo médico veterinário.