LEISHMANIOSE CANINA

LEISHMANIOSE CANINA

A Leishmaniose canina é uma doença parasitária provocada por um protozoário do género Leishmania . Em Portugal a espécie responsavél é a Leishmania infantum . A Leishmaniose está largamente distribuída em várias regiões do mundo, principalmente as de clima quente, não sendo exclusiva de climas tropicais. Em Portugal, e em muitos países mediterrâneos, é considerada endémica.

O cão é um importante reservatório da doença. Mais raramente, o homem e outras espécies animais (rato, raposa, etc.) também podem ser afectados. Em Portugal, a incidência desta doença é baixa no homem, sendo que pessoas com comprometimento do sistema imunitário são mais susceptíveis.

Transmissão

A doença transmite-se exclusivamente através da picada de uma espécie de mosquitos, os flebotomos (phlebotomus). Excepcionalmente pode haver transmissão da doença através de transfusões sanguíneas, ainda que esta via não tenha grande importância epidemiológica. Contudo, animais que sejam dadores de sangue devem ser testados para descartar esta doença.

A Leishmaniose canina não se transmite pelo contacto directo com o animal doente, nem por mordeduras ou secreções do mesmo. No entanto, cães saudáveis têm maior probabilidade de ser infectados se partilharem espaço com cães infectados, porque há maior probabilidade de serem picados por um mosquito transportador da doença.

O flebotomo é mais activo ao entardecer e por essa razão animais que vivem em jardins, dormem no exterior ou que passeiam a essas horas  são mais susceptíveis de serem infectados.

Ciclo Evolutivo

As leishmanias são parasitas que apresentam duas formas evolutivas fundamentais: amastigotas cão e promastigotas no mosquito. A forma amastigota encontra-se nos macrófagos e nas células do sistema reticuloendotelial dos vertebrados.

O ciclo evolutivo da leishmania inicia-se quando um flebótomo fêmea ingere sangue de um animal infectado com formas amastigotas do parasita. Estes transformam-se em promastigotas no intestino médio do flebótomo e migram para a faringe do mosquito, sendo inoculados no cão durante a picadela.

Sintomas

Uma vez inoculado no cão, o parasita dissemina-se por meio da corrente sanguínea, atingindo diferentes órgãos: baço, figado, rins, médula ossea, articulações, pele, entre outros, onde produz efeitos nocivos para o hospedeiro.

No cão, as leishmanias raramente se observam no sangue. Os orgãos que possuem células linfóides e macrófagos (gânglios linfáticos, médula óssea, baço) são os mais afectados, porque é nessas células que o protozoário se instala.

A gravidade e a velocidade da evolução da doença estão relacionadas com o grau e intensidade da resposta imunitária. O período de incubação (tempo que decorre entre o animal contrair a doença e o aparecimento dos primeiros sintomas) pode durar entre meses a anos e depende de muitos factores, entre os quais a própria resistência do animal.

A sintomatologia clínica também é muito variável, dependendo do grau de infestação, do estado imunitário do hospedeiro, do tempo de evolução e dos órgãos afectados. No entanto, os sintomas mais característicos e clássicos da Leishmaniose canina são visíveis a nível cutâneo (forma cutânea): lesões descamativas, crostas e alopécia na face, pavilhões auriculares e extremidades. Também podem surgir úlceras, nódulos e erosões.

Adicionalmente, o animal pode estar deprimido, anoréxico (falta de apetite), mais magro do que o habitual e com o aumento dos gânglios linfáticos. Epistáxis (hemorragias nasais), crescimento exagerado das unhas, claudicação (coxeira), colite crónica e lesões oculares (blefároconjuntivite, uveite, etc.) também podem ser observados. Uma também conhecida complicação da infecção por leishmaniose é a insuficiência renal crónica que se pode instalar, levando a um aumento dos parâmetros renais (forma visceral).

Podem existir animais com ambas as formas (forma viscero-cutânea) ou animais com sintomatologia muito leve ou mesmo serem totalmente assintomáticos, o que torna muito difícil fazer o diagnóstico unicamente com observação do quadro clínico.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo, sempre que seja possível, é baseado na visualização do parasita, mediante citologia da médula óssea, gânglio ou biopsia cutânea.

As técnicas serológicas são uma grande ajuda no diagnóstico da Leishmaniose canina. No entanto, estes testes podem dar resultados negativos em pacientes que estão infectados (falsos negativos).

As análises de sangue e urina são bastante importantes no diagnóstico. A proteinúria, a hiperproteinémia, a anemia, e ureia e creatinina aumentadas constituem dados de valor informativo importantíssimo para chegar ao diagnóstico.

Tratamento

Infelizmente, ainda não existe tratamento que permita eliminar o parasita do organismo. Pelo que, para assegurar uma boa qualidade de vida do paciente, deve ser realizado um tratamento sintomático, podendo este durar anos. As moléculas clássicas, como os sais derivados do antimónio de n-metil glucamina, constituem a base da terapêutica. Actualmente administra-se simultaneamente alopurinol pelo seu efeito sinérgico.

A supressão do tratamento da Leishmaniose visceral deve-se basear na normalização do proteinograma e na diminuição da titulação do parasita, realizada por imunoflurescência indirecta. Quanto maior é o controlo pós-terapêutico do animal, de forma clínica e laboratorial, maior é o tempo de sobrevivência. É aconselhável realizar controlos periódicos mediante exames clínicos e laboratoriais (proteinograma e Imunoflurescência) para detectar as possíveis recaídas.

Para o êxito da terapia é importante a atitude e colaboração do proprietário e a ausência de insuficiência renal. Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores serão as possibilidades terapêuticas para manter o animal com boa qualidade de vida.

Prognóstico

A Leishmaniose canina é evidentemente uma doença grave. No entanto, quando o diagnóstico é precoce e o tratamento instaurado atempadamente, é possível controlar a doença. Contudo, o animal nunca chega a curar-se totalmente, sendo necessária uma manter uma periodicidade nas visitas de controlo Médico-Veterinário.

Prevenção

Não havendo cura, a melhor arma para a doença é a prevenção. Coleiras de deltrametrina (Scalibor®), ou desparasitantes externos (Advantix®) são recomendados para serem utilizados como repelente do mosquito. Adicionalmente, deve evitar passear o animal ao entardecer, em zonas que possuam charcos, pequenos lagos (ex.: jardins), ou mesmo rios.

Actualmente, desde o 1º trimestre de 2011, foi colocada à disposição de qualquer cão a vacina contra a Leishmania Infantum. O desenvolvimento desta vacina foi feito ao longo de 20 anos e vários estudos comprovaram uma eficácia de 98%. Um animal vacinado, se for picado por um mosquito infectado, não vai desenvolver a doença, pois o  anticorpos formados pela vacina impedem o desenvolvimento do parasita.

Antes da administração da vacina, o animal deve ser submetido a um teste rápido para despistar a presença da doença. No caso de ser negativo, poderá ser vacinado a partir dos 6 meses.

Após a primeira vacina, são necessárias mais duas administrações espaçadas por um mês. Este protocolo vacinal garante que há uma boa estimulação do sistema imunitário e protecção contra a leishmania. A vacinação deverá ser repetida anualmente, mas já só com uma administração única. Deve informar-se junto do médico veterinário.